Ali, eu criava um leão sem dentes, mas não tinha tempo para alimentá-lo.
Na véspera, vinda de uma festa, eu dividira um taxi com a Maitê Proença*.
Não foi bem assim uma divisão. Por acaso saímos da mesma festa de madrugada, já quase de manhã e fomos juntas buscar um taxi que não queria nos levar.
Ele estava parado. Não queria sair.
Então, ela – certamente com a autoridade de ser quem era -, perguntou-lhe se ele lhe emprestava o carro. No seu tom estava embutido que ela devolveria honestamente o automóvel e ele, prontamente, cedeu aos seus encantos.
Estava ocupado em se divertir.
Seguimos pela Lagoa – Maitê Proença* ao volante e eu, no taxi amarelo.
Paramos numa pracinha do Jardim Botânico e ela desceu, já encontrando seu amado na calçada. Eu disse:
- Ei, você não vai devolver o carro?
Ao que ela deu de ombros como quem diz: devolve você! E saiu pela calçada arborizada.
Pensei imediatamente que já estava na hora de eu aprender a devolver os problemas para os outros e não pegá-los para mim, como de costume.
Mas essa conclusão haveria de servir para a próxima vez, pois eu já estava no volante do carro.
Fui dar em casa – e o local tinha o movimento de um centro holístico. O lugar me era familiar e havia várias pessoas, quase como numa festa.
As pessoas dançavam e alguns bebês nadavam na água.
Eu até nadei com eles.
O mote era “dançar conforme a música”.
Ou “em Roma, como os romanos” – para usar uma expressão do meu marido.
A certa hora o ritmo frenético da casa brecou e eu me lembrei que tinha que devolver o taxi.
O carro ainda estava lá fora, porque eu encontrei a casa cheia. O que quer que signifique esse raciocínio, foi o que me ocorreu.
Corri à portaria, onde o carro estava parado e duas pessoas conversavam.
Dali mesmo, vi o leão.
E me lembrei que ele estava, há alguns dias, com fome.
O pelo muito dourado e o focinho banguela babando confirmavam meu insigh.
Virei-me rapidamente para, enfim, buscar comida e, no ato, senti o bafo do perigo ao dar as costas a um leão faminto.
Do sonho adiante só me lembro dos convivas na contínua celebração dos vegetarianos, agora em torno de belos cortes de picanha sangrenta.
Picanha de leão.
...
Mundo real. De manhã, após um exame de sangue, um taxi veio buscar a mim e ao meu filho para nos levar ao médico. Depois de um engarrafamento de 120 minutos, estou sentada com meu adolescente na pequena sala de espera do Dr. Gorgone. Chego, sento, me apresento, respiro, viro para o lado e reparo sobre a mesa de canto um enorme objeto quase encostado no meu braço direito. Uma carranca de madeira maciça de sessenta centímetros de diâmetro por oitenta de altura com a boca aberta cheia de dentes – e afiados caninos - me sorri!
Rio, 8 de março de 2010.
Obs.: Sonhos quase nunca valem uma boa crônica. Este é apenas um exemplo. Vale pela retomada do blog...
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