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Márcia
quinta-feira, 17 de junho de 2010
quinta-feira, 3 de junho de 2010
Meu amigo, Charlie*
Você vai ficar na saudade, minha senhora*. Não sei de quem a letra fala, não dá pra saber. Sei que ver um teatro lotado de gente cantando as músicas do repertório de um show, emociona. Mais ainda quando acontece no interior. Nunca me imaginei sentada na plateia de um show de Benito de Paula. Se bem que naquela fase da vida em que a canção de fundo foi minha alma canta, vejo o Rio de Janeiro**, eu, guardasse, perdido comigo, em alguma gaveta**, o bordão do friburguense apaixonado: “Eu sou homem da montanha...*
Esperava conhecer um pouco mais do repertório, mas vi que sabia muito pouco. No entanto, minha ignorância não atrapalhou a experiência, que teve novidades. A massa sentada no escuro deixou de lado o habitual recato e deu vazão a emoção, cantando harmoniosamente música após música, verso após verso. O que foi muito bom, por, pelo menos, dois motivos: o coro estava suave e afinado; o som estava péssimo. Mas tudo bem, “hoje é carnaval”**.
Desde a abertura, as caixas de som vibravam ruidosamente. E o artista repetiu a entrada. Constatei, subitamente, que ele não tem uma voz maravilhosa e está longe da vocação para showman, embora fizesse umas piadinhas engraçadinhas das quais o público ria muito. Mas deixo claro que gostei, se não, não escreveria sobre, até porque, como bem diz um dos versos, se não for amor, não diga nada, por favor*. Lindo, não? É, como eu disse, bonito, ver as pessoas na plateia cantando as músicas de Benito. Há versos muito inspirados que ficam na saudade.
No balanço das ondas a gente se equilibra e, no embalo do palco, navega. Minha visão de plateia de cidade do interior como a minha é que ela aplaude até espirro de artista. Não haveria mesmo de ser diferente com o músico que ainda hoje melhor representa sua terra. Venho muito aqui, mas não canto, disse ele sorrindo. E repetiu a entrada pra ver se o som se acertava, claro. E também para sentir de novo o calafrio da acolhida. Foi bonito.
Família acompanhando no palco, familiares na platéia e... de surpresa, entra o filho do artista, compositor e pianista tímido e talentoso, generoso nas palavras, que trata o ambiente pelo viés do parentesco, como um neto crescido que pede à audiência: Bença, vó! A grande família de Benito de Paula reúne um pedacinho do coração de cada friburguense. Ficou claro ali. É por isso que repetiu, algumas vezes, que já sabe aonde vai gravar seu dvd. E avisou sutilmente: preparem os gogós! Ou, como diz o verso de outra canção: prepare o seu coração...**
Se nunca tinha me visto na audiência de um show do cantor, os anos vieram e me fizeram um pouco mais acostumada com a vida que, de tempos em tempos, nos dá a chance de rever nossos valores e fazer coisas que nunca pensamos fazer antes. Ou, de gostar de coisas, de pessoas, de livros, de ideias, de músicas e melodias que, algumas vezes, detestamos ontem. “Vou levando a vida do jeito que ela me levar”*, diz outro verso cantado pela multidão.
No meio das surpresas, percebi o mérito maior no talento do artista. Ele é sambista. Como há um hiato de muitos anos desde o lançamento dos sucessos, disso eu não me lembrava. E se, como diz outra letra de um baiano, cantado por um compositor vizinho, chamado Martinho - “quem não gosta de samba, bom sujeito não é”** - então, gente, Benito é um bom sujeito. E que foi trazido ao palco aqui por um certo Jaburu para cantar e embalar sua terra.
Moço, aumente esse samba que o verso não para!*. Bonito, Benito!
Moço, aumente esse samba que o verso não para!*. Bonito, Benito!
* Frases com um asterisco são versos de canções de Benito de Paula.
** Frases ou expressões com dois asteriscos são, pela ordem: Tom Jobim em Samba do Avião; Milton Nascimento e Ferreira Gullar em Bela, Bela; Zé Keti e Pereira Matos em Máscara Negra; Geraldo Vandré e Theo de Barros em Disparada; Dorival Caymmi em Samba de Minha Terra, cuja memória que tenho é da letra na voz de Martinho da Vila.
** Frases ou expressões com dois asteriscos são, pela ordem: Tom Jobim em Samba do Avião; Milton Nascimento e Ferreira Gullar em Bela, Bela; Zé Keti e Pereira Matos em Máscara Negra; Geraldo Vandré e Theo de Barros em Disparada; Dorival Caymmi em Samba de Minha Terra, cuja memória que tenho é da letra na voz de Martinho da Vila.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Comece bem o seu dia
Comece bem o seu dia. É a melhor maneira de fazê-lo terminar bem. Comece bem sua crônica. É a única maneira de ela acabar bem. Já que, como a vida e as novelas, tudo finda, o melhor é terminar bem. Mas não pode terminar bem o que nem bem começou.
Óbvio. A vida tem uns principiozinhos básicos, como o de tomar café da manhã. Por oposição, você pode, também, não tomar o café da manhã, mas ele está ali plantado bem no início do dia, quer você passe por ele ou não. Há exceções, mas o que seriam das regras, se não fossem elas? Também, por oposição, se completam.
De uma semana para outra penso no que vou escrever e, às vezes, não dou em nada. Por oposição, mais uma vez, dou em tudo. Dar em tudo significa que um só tema não me impressionou – como acontece, às vezes, aqui mesmo, neste espaço. Então começo a olhar para os lados sem procurar nada, porque ando vendo tudo. O que significa que um tema se encosta no outro e soma, dando um resultado no conjunto que:
Escrevo muito bem sobre nada, digo, muito confortavelmente. Mas desde que fui convencida de que os leitores preferem uma certa coisa chamada assunto ou outra certa coisa chamada tema, ou ainda uma terceira coisa chamada história, deixei de lado este não-tema tão delicioso. Estou um pouco enferrujada. Adoro padarias para o café da manhã. O que mais gosto em padarias é o cheiro. O cheiro é o raro.
Hoje, as padarias tendem para o que há de mais moderno. São ótimas! Mas felizmente há aquelas que resistem às transformações que seqüestram o cheiro antigo e não o devolvem mais. Entrei para comprar pão dia desses, encostei no balcão e disse, como antigamente: Moço! Tudo em volta era ultrapassado, do lay-out à cor. O pão, comum, desses que a gente gosta, francês. Aproximei meu nariz enquanto esperava. Quase fui sugada lá para dentro, mas me contive; corria o risco de ficar colada ali, cheirando o ar.
Com vergonha, cheirei uma vez só e fundo. E depois quis voltar. E lamentei não chegar tranquila pela outra ponta do balcão, pedir um cafezinho e passar a vida cheirando aquele ar. Porque não era só o cheiro do pão fresco. Misturavam-se também o cheiro das latas empilhadas no alto da prateleira, dos bolos nos tabuleiros no balcão, do café da manhã de sábado; o cheiro das roupas nas barrigas encostadas na fórmica azul, o cheiro da amizade dos que se revezavam no caixa, o cheiro do dinheiro miúdo trocado por moedas, o perfume dos sorrisos dos que se esbarravam no espaço pequeno do lado de dentro.
Tudo isso junto numa cafungada? E não é assim a vida? Num olhar, uma eternidade. Em outro, poço de banalidade. Para escrever bem, tem que puxar o fio do novelo por uma ponta; mas, às vezes, essa ponta só aparece quando já estamos perto do fim. Não é assim a vida? Acontece...
* Devo o título acima a uma frase que li numa parede de manhã; devo à frase – e à sua autora – a sorte de ter escrito esta crônica ontem. Porque se fosse hoje, sei não. É preciso começar bem o dia.
Óbvio. A vida tem uns principiozinhos básicos, como o de tomar café da manhã. Por oposição, você pode, também, não tomar o café da manhã, mas ele está ali plantado bem no início do dia, quer você passe por ele ou não. Há exceções, mas o que seriam das regras, se não fossem elas? Também, por oposição, se completam.
De uma semana para outra penso no que vou escrever e, às vezes, não dou em nada. Por oposição, mais uma vez, dou em tudo. Dar em tudo significa que um só tema não me impressionou – como acontece, às vezes, aqui mesmo, neste espaço. Então começo a olhar para os lados sem procurar nada, porque ando vendo tudo. O que significa que um tema se encosta no outro e soma, dando um resultado no conjunto que:
Escrevo muito bem sobre nada, digo, muito confortavelmente. Mas desde que fui convencida de que os leitores preferem uma certa coisa chamada assunto ou outra certa coisa chamada tema, ou ainda uma terceira coisa chamada história, deixei de lado este não-tema tão delicioso. Estou um pouco enferrujada. Adoro padarias para o café da manhã. O que mais gosto em padarias é o cheiro. O cheiro é o raro.
Hoje, as padarias tendem para o que há de mais moderno. São ótimas! Mas felizmente há aquelas que resistem às transformações que seqüestram o cheiro antigo e não o devolvem mais. Entrei para comprar pão dia desses, encostei no balcão e disse, como antigamente: Moço! Tudo em volta era ultrapassado, do lay-out à cor. O pão, comum, desses que a gente gosta, francês. Aproximei meu nariz enquanto esperava. Quase fui sugada lá para dentro, mas me contive; corria o risco de ficar colada ali, cheirando o ar.
Com vergonha, cheirei uma vez só e fundo. E depois quis voltar. E lamentei não chegar tranquila pela outra ponta do balcão, pedir um cafezinho e passar a vida cheirando aquele ar. Porque não era só o cheiro do pão fresco. Misturavam-se também o cheiro das latas empilhadas no alto da prateleira, dos bolos nos tabuleiros no balcão, do café da manhã de sábado; o cheiro das roupas nas barrigas encostadas na fórmica azul, o cheiro da amizade dos que se revezavam no caixa, o cheiro do dinheiro miúdo trocado por moedas, o perfume dos sorrisos dos que se esbarravam no espaço pequeno do lado de dentro.
Tudo isso junto numa cafungada? E não é assim a vida? Num olhar, uma eternidade. Em outro, poço de banalidade. Para escrever bem, tem que puxar o fio do novelo por uma ponta; mas, às vezes, essa ponta só aparece quando já estamos perto do fim. Não é assim a vida? Acontece...
* Devo o título acima a uma frase que li numa parede de manhã; devo à frase – e à sua autora – a sorte de ter escrito esta crônica ontem. Porque se fosse hoje, sei não. É preciso começar bem o dia.
terça-feira, 18 de maio de 2010
Oitenta anos
Ao fim e ao cabo, somos somente eu e as palavras que nascem. Não tem sinal vermelho, não tem faixa amarela. As palavras jorram de uma fonte contínua, entremeada apenas pelos atos cotidianos. Foi de um momento desses que colhi tais pensamentos.
Um senhor muito idoso, ativo, bastante poderoso, e que fala muito bem, fez as pessoas pensarem. Seu tom é dramático, tem ênfases precisas e modulação na altura da voz, de olho na módica assistência. Não o inibe o microfone. Na mesa estende o chapéu como uma marca que beira a inocência, sublinhando a fala ou a fotografia do momento. A pele é clara e o rosto é comprido.
Ele, quando fala, faz pensar – o que é uma verdadeira raridade em se tratando de políticos, especialmente no interior. Quando fala, este senhor magro ocupa a totalidade da arena, não deixa espaços. Apóia sua performance, visivelmente, no peso dos anos sobre os ombros, que faz parecer leve, tamanha a sua energia. Chega a ser ríspido, mas a idade e muitas outras coisas – que a audiência sabe e concede – lhe permite.
Começa sempre contando uma história. Traz a história para o discurso, vem lá de trás seu raciocínio. Só por aí, já sai na frente. E não importa se terá que realinhar fatos - somar, subtrair, multiplicar - para sustentar seus argumentos. Não é o que está em jogo. Então, começa contando uma história que ninguém se lembra, que muitos não sabem que existia, que outros irão repetir. Ilumina a palavra e tece a trama. Gesticula, argumenta, cativa a audiência de iguais e súditos que, ali, não lhe chegam aos pés. Em terra de cego, quem tem um olho é rei, não é assim? Pois ele não apenas reina, como afirma claramente para a muda assistência: Aqui, o rei sou eu.
E sonha. Sonha alto e em voz alta. E do alto dos seus oitenta, impressiona. Dá-se o direito de enlouquecer no poder. Um pouco de louco, um quê de criança, um sonhador, um fazedor. Abstraio o político, observo o homem. Esqueço o passado, concentro-me no velhinho que, ali, é alguém de futuro. Transforma-se em menino. Tem, aliás, olhos de menino que enxerga longe. São olhos muito abertos, muito vivos, olhos de quem já viu tudo e que agora se atiçam para enxergar o futuro. Do alto, onde está, quer ver ao longe. Amplia e alarga a visão por sobre as montanhas. Não importa: “quanto é melhor quando há bruma e e esperar por Dom Sebastião, quer ele venha ou não”*.
Então aquele senhor de mais de oitenta anos, que viveu muito e pode ter influenciado a vida de dezenas de milhares de pessoas para o bem e para o mal, vaticina. Categórico, canta para a audiência que não está de costas para a tecnologia: só não tenho tempo de descobrir todas as funções do meu celular. Talvez não tenha tempo mesmo. Frase dele para finalizar: o século XX foi o século das coisas impossíveis, o século XXI será o das inimagináveis. Inimagináveis, repetiu.
***
Um jovem homem, passando por uma piscina em domingo de sol, cumprimenta um outro senhor que acabou de fazer oitenta. Vida boa, hein?, diz. Ao que o outro responde: Pena que está acabando.
***
Meus cumprimentos ao Sr. Heródoto e meu abraço ao Sr. Laércio.
* Verso de Fernando Pessoa no poema "Liberdade".
quarta-feira, 12 de maio de 2010
Imaginando Palavras*

Dia das Mães, meu filho me concede uma visita e a honra de entrar no meu Blog. Depois que eu insisto. Lê a crônica do Mosteiro em um tempo que, eu achei, dava para ler duas. Mas se levanta e vem me abraçar. Você escreve sobre o que você quer, né?, ele diz, com o jeitão adolescente e tom levemente irônico. Eu rio. Ele completa, quase como uma suave e sincera concessão: eu gosto do jeito que você escreve.
Claro que eu escrevo sobre o que eu quero, isso é um blog! Respondi assim. Rimos mais um pouco, depois vou dormir. Olhos fechados, já com a cabeça no travesseiro há algum tempo, sinto meu sorriso constante espalhado pelo rosto. Não estou dormindo. A cabeça voa leve na frase e, especialmente, no tom cantado da fala do meu filho. Sobre o que você quer, né? Tônica no verbo como um mergulho. Aquilo ecoa em mim de maneira clara.
Levanto-me da cama. De tanto pensar alegremente, meu pensamento foi dar no passado, evocado pelo presente. Sei que deixei um lápis na cabeceira, mas papel, não. Tateio no escuro, no encalço, de pé para laçar os pensamentos que, curiosamente, me faziam sorrir e que ainda não tinham me deixado dormir. As frases permaneciam comigo, acesas. Vinham e voltavam. Encadeadas. Decantadas pelo ato de viver.
Alcancei a caderneta vermelha no quarto ao lado e voltei ao escuro, para não acordar ninguém, muito menos a minha consciência. Qualquer escritor maduro sabe que o sono deveria ficar para depois. Que o correto seria ir atrás daquela ponta de iceberg ali mesmo, não importa a hora, e escrever. Tudo de um jorro, mas não. Anotei as primeiras frases, as primeiras ideias e achei que assim ficaria em paz. Mas não.
De qualquer forma, ainda enquanto releio o que escrevi até aqui, há um sorriso em qualquer lugar. Que sequer combina com a história que vou contar. Certa vez fui jantar com o diretor de um jornal em que já trabalhei. Eu queria ser cronista. Na época daquele jantar, o jornal não tinha crônicas de nenhuma espécie. Ou, pelo menos, da espécie que eu entendia que fossem crônicas. Escrevi algumas e enviei para ele. Em troca, pedia liberdade total sobre o tema a escrever. Eu era muito jovem. Ele não entendia que a liberdade que eu pedia era “conceitualmente total”. Eu, com toda certeza, também não soube explicar.
Ele me levou a Ipanema para jantar. Havia umas três espécies de capangas que ficaram por perto. Percebi somente na saída. Eu era muito jovem. Ele pediu um prato. Eu pedi sopa. Estraguei o jantar com a minha liberdade. Não posso pedir o que eu quiser? A um sinal, o grupo bateu em retirada. Nunca mais espaço pra mim no jornal. Acho que voltei de táxi. Pelo menos acabara ali mesmo, no jantar. Eu era muito jovem.
Essa a lembrança que, inadvertidamente, me fez rir. Pode ter sido a conexão de uma época em que eu sonhava em ser cronista e nem pensava em ser mãe, com esta agora em que sou mãe e refaço meu caminho de cronista. Pode ter sido isso, somado à melodia irreproduzível do pedaço de frase desafiante: “sobre o que você quer, né?”. Como se a ênfase no verbo servisse de trampolim para lançar o tema no ar. Ainda não sei que sorriso é este.
Posso escrever sobre o que eu quiser? Foi meu pedido incômodo no jantar. O prato de sopa era minha liberdade. Eu era muito jovem para saber explicar que há de haver, pelo menos, um cheiro qualquer da ilusória liberdade total para a (minha) escrita nascer. O resto é letra de forma. A frase precisa de liberdade para nascer. É dali que ela brota. De um certo nada. De um vasto tudo. De onde vêm as vozes. De onde nascem os sentimentos. Sempre persigo a ocasião de cada um desses nascimentos, porque no alvorecer o sentimento é mais puro.
Até o ato de imaginar palavras é um ato improvável. Bato palmas para os neurologistas, eles devem saber onde fica esse tal de pensamento. Escrevo, escrevo e continuo sorrindo. Gosto de ver o texto brotando do que parece silêncio. Apenas parece. Confesso que escrevi e não descobri a razão do sorriso, só sei que escrever é reescrever. E reescrever é ponderar. Aí, sim: adeus, liberdade!
* Obrigada Gian Calvi* por me ajudar a titular e a ilustrar esta crônica (www.giancalvi.com.br).
domingo, 2 de maio de 2010
Cinco minutos no Mosteiro

Não, eu não queria entrar. Não quero ir ao Mosteiro de São Bento, eu quero ir para casa, eu preciso escrever. Já tinha vivido o bastante para o download das ideias fazer algum sentido aqui. Julgava que já era hora de voltar, porque, no fundo, tudo se resume a me afastar daqui e voltar para cá. Para as letras e as palavras que elas formam.
O que aconteceu depois mostrou-me que não era hora ainda. Como o carro já tinha ultrapassado o portão, tratei de achar que talvez desse para fotografar a baía lá de cima. De tal lugar, até hoje, só conhecia a fachada. E a fama. Subimos de carro, no domingo ensolarado, a pista que leva ao Mosteiro, e um pátio belíssimo coberto de grandes pedras e cercado por fartas árvores exibiu-se antes da igreja. Meu olhar se espraiou pelas pedras feito lagartixa e esqueceu de buscar o mar.
A igreja me chocou um pouco pelo excesso de detalhados ornamentos que me recuso a descrever. Mas na varanda, sentado a um canto, um velho frade, todo paramentado, parecia ouvir as confissões de um rapaz. Os trajes se contrastavam. O velho monge em preto óbvio, da cabeça aos pés. O jovem homem em camiseta simples, mas de forte tom alaranjado. Eu os vi assim que cheguei, pois compunham o quadro, posicionados ali adiante. Pensei em fotografar, mas não ia atrapalhar a confissão.
Então empunhei a máquina para a igreja, mesmo sabendo que sou péssima fotógrafa de igrejas. Elas são sempre muito grandes e não cabem no meu quadro de amadora. Elas são sempre muito escuras – e aquela é especialmente escura, porque parece não haver uma única paredinha sem seus encaracolados entalhes. Fotografei o chão e suas composições sem muita fé. E voltamos para o carro que ocupava o pátio, assim como alguns outros carros, razão suficiente também para eu não fotografar o pátio.
Baixei o vidro e, de longe, dei adeus ao monge. Ele respondeu. Ele respondeu?! Fui intimada pelo meu acompanhante a descer do carro para cumprimentá-lo de perto, a enorme contragosto, porque essa atitude confronta-se terminantemente com a minha minhoquice. Ainda afastada, lancei um “boa tarde”, meu bordão de aproximação. Ele e o rapaz, que tinham cara de interrogação, relaxaram. Pedi licença para a fotografia, achando que seria capaz de traduzir com a máquina o impulso que tive quando os vi sentados lá adiante no pátio.
Conversamos. Um diálogo partido. Um senhor muito, muito idoso. Com as bochechas magras pendendo para baixo, uma de cada lado. Os olhos azuis, de um azul que me fez pensar se essa cor sempre estivera ali. Seu nome é Clemente. Clemente Isnard?, eu pergunto. Ele fora bispo na minha cidade! Durante 30 anos, mas depois, por causa da idade, tive que deixar, disse-me. Misto de desolo e conformação, sinto. Era um bispo muito, muito querido. Depois fui auxiliar em Duque de Caxias, na baixada fluminense. Auxiliar, repetiu.
Deu-me o endereço para que enviasse as fotos. Mal sabe ele que ficaram péssimas, não sirvo também para fotografar monges velhinhos de preto com amigo de camiseta alaranjada do lado. Eu quis saber o que – com o perdão da expressão – o que diabos ele fazia ali, naqueles míseros minutos em que subimos de carro para uma visita ao Mosteiro depois de já termos visitado quatro ou cinco exposições no centro do Rio. Um táxi parou para buscá-lo e eu entendi. Estavam indo para a Lagoa, onde se hospeda quando vem de Recife. Quinze dias em Recife, quinze dias no Rio, me explica o amigo.
Mas e ali, no Mosteiro, o que viera fazer? Nem perguntei. Fizemos o caminho de volta com a máquina cheia de fotos lambidas e o bispo na engrenagem da minha consciência.
terça-feira, 27 de abril de 2010
As quatro estações
Há pouco tempo bateu o outono, que traz para a vida um tom invernal e boa dose de sutileza. É mais ou menos assim: o azul turquesa do céu profundo avisa que, do aparente calor, nasce o frio. Há pouco tempo, o tempo virou muito rápido – e isso não é novidade para ninguém. Pode ser que ele desvire também: o tempo – já se disse – é o senhor da razão. E nunca o foi tanto como agora.
Há poucos dias – está bem, semanas - era, ainda, verão. Calor intenso e suor, em resumo. Vieram as chuvas que ninguém pediu. Quem comanda as chuvas? Com as águas e o descalabro que causaram, veio esse outono invernal. Esperei passar as chuvas e as matérias da televisão para sentir a coisa estranha que é ver vir o frio de repente. Que vai passar também, rapidamente.
Não é que o inverno não suceda o verão, mas é que no meio tinha outra estação. Confesso que não sei mais o que é outono – que era bom por si. Hoje, no entanto, não posso reclamar. Aqui, onde me encontro, está um belo dia de outono, um fresco frio e um sol quentinho. Quando a estação muda de repente, o humor da pele em choque demora se acostumar.
Pensando bem, o melhor que pode acontecer é isso mesmo: estranhamento da pele e dos ossos. Porque se não, pode ser pior: água pelas canelas e até o meio da geladeira; cinzas brancas, pretas, vis, que prendem a pessoas em destinos que elas escolheram, mas que não escolheriam por tempo indeterminado; tremores que fazem valer o ditado: um dia a casa cai; ondas que se alteram quando se queriam mansas; ondas silenciosamente caladas que ensejam um monstro que ameaça vir. As autoridades, atarantadas, encontram na natureza hostil suas melhores desculpas.
São os problemas dos radares, dos sensores, da polícia, dos políticos, dos governos, das indústrias, da moda, até. A moda agora é o guarda-chuva. E botas grossas. E casacos toscos na onda “pauvese” – pasmei com essa palavra ao vê-la impressa no maior jornal do país! O mundo está pobre, empobrece diante dos nossos olhos. Palacetes viram escombros. Ricos senhores congestionados no tráfego terrestre europeu. Pobres senhoras também. Ricos pagam mais, mas não se livram dos males, embora fiquem com os menores.
Enfim, parece que o tempo cumpre o seu destino. Não havia um livro, do qual todos tinham medo, que falava do fim dos tempos? Que tempos haverá? Qual será o tempo no dia do fim? As quatro estações do ano quase ao mesmo tempo, não seria novidade, já que, volta e meia, um dia encena esse espetáculo.
Espetacular, seria! Tenho medo que, às vezes, tanta tecnologia nos tenha chegado para melhor assistir a decadência pelos olhos da tv, pelo choque do twitter. Tão alheia, tão alheia, mas tão alheia decadência, que chega a ser impossível ficar de fora. Arremato com non sense, porque talvez seja o que resta. Como diz, de vez em quando, um cronista de revista que escreve sobre tv: me inclui fora dessa. Aliás, Coca-Cola é isso aí. Não era?
Há poucos dias – está bem, semanas - era, ainda, verão. Calor intenso e suor, em resumo. Vieram as chuvas que ninguém pediu. Quem comanda as chuvas? Com as águas e o descalabro que causaram, veio esse outono invernal. Esperei passar as chuvas e as matérias da televisão para sentir a coisa estranha que é ver vir o frio de repente. Que vai passar também, rapidamente.
Não é que o inverno não suceda o verão, mas é que no meio tinha outra estação. Confesso que não sei mais o que é outono – que era bom por si. Hoje, no entanto, não posso reclamar. Aqui, onde me encontro, está um belo dia de outono, um fresco frio e um sol quentinho. Quando a estação muda de repente, o humor da pele em choque demora se acostumar.
Pensando bem, o melhor que pode acontecer é isso mesmo: estranhamento da pele e dos ossos. Porque se não, pode ser pior: água pelas canelas e até o meio da geladeira; cinzas brancas, pretas, vis, que prendem a pessoas em destinos que elas escolheram, mas que não escolheriam por tempo indeterminado; tremores que fazem valer o ditado: um dia a casa cai; ondas que se alteram quando se queriam mansas; ondas silenciosamente caladas que ensejam um monstro que ameaça vir. As autoridades, atarantadas, encontram na natureza hostil suas melhores desculpas.
São os problemas dos radares, dos sensores, da polícia, dos políticos, dos governos, das indústrias, da moda, até. A moda agora é o guarda-chuva. E botas grossas. E casacos toscos na onda “pauvese” – pasmei com essa palavra ao vê-la impressa no maior jornal do país! O mundo está pobre, empobrece diante dos nossos olhos. Palacetes viram escombros. Ricos senhores congestionados no tráfego terrestre europeu. Pobres senhoras também. Ricos pagam mais, mas não se livram dos males, embora fiquem com os menores.
Enfim, parece que o tempo cumpre o seu destino. Não havia um livro, do qual todos tinham medo, que falava do fim dos tempos? Que tempos haverá? Qual será o tempo no dia do fim? As quatro estações do ano quase ao mesmo tempo, não seria novidade, já que, volta e meia, um dia encena esse espetáculo.
Espetacular, seria! Tenho medo que, às vezes, tanta tecnologia nos tenha chegado para melhor assistir a decadência pelos olhos da tv, pelo choque do twitter. Tão alheia, tão alheia, mas tão alheia decadência, que chega a ser impossível ficar de fora. Arremato com non sense, porque talvez seja o que resta. Como diz, de vez em quando, um cronista de revista que escreve sobre tv: me inclui fora dessa. Aliás, Coca-Cola é isso aí. Não era?
domingo, 18 de abril de 2010
Catedral
Meu marido acha que é fácil assim: escreve sobre isso, ele diz. Se eu fosse você, escreveria sobre aquilo, olha a cara dessas pessoas. Tá bem, mas. Não é assim, eu digo. Só de você falar, o tema já foi. Não escrevo sobre algo que se possa pegar.
Ontem, o show foi num galpão sem paredes, só tinha teto e chão de galpão. Num lugar da cidade chamado “Ação Rural”. Chegamos cedo para ver como é que era. Tem que comprar ingressos? Tem não. É fácil, explicam. Tem um gramado, depois tem um galpão. É só seguir.
Fácil mesmo. O gramado não era gramado, é um terreiro; o gramado mesmo ficava do outro lado, no campo de futebol. O galpão, já disse, deixava vazar os olhos pelas paredes - tudo grande e, em volta, o verde das montanhas e das matas. O chão do galpão se elevava sobre o terreiro uns dez degraus. Lá dentro do que era vazado: uma parte de cadeiras, outra de palco, outra de chão. No centro do palco, do alto, pendia um faixa.
É aqui mesmo, eu disse. E saímos para o lugarejo vizinho, matar as saudades: falar com um chef baiano que serve comida afrofrancesa; falar com um dentista que é dono de pousada; pegar uma sandália indescritivelmente confortável, incomparavelmente bela e escandalosamente barata que há meses estava encomendada; comer uma salada de folhas dos deuses com o peixe que lhe fez companhia; e voltar.
Meia hora antes do show, ao descer do carro, esbarro num casal de amigos e sentamos juntos nas cadeiras disponíveis. Estavam perto do palco e não eram muitas. Dali dava para sentir a alegre expectativa do público e ver o capricho do acontecimento. Um forte arco de metal impunha sua presença cruzando a frente do palco de um canto ao outro e dando suporte a luzes e alto falantes. O banquinho vazio e os dois microfones posicionados aguardavam o músico e, sob o jogo de luz, pareciam estar ali para receber o público.
Que chegava e chegava. Olhando para trás – mas quem queria olhar para trás? Pois, olhando, o chão do galpão era um mar de gente. O músico entrou, pontualmente. Trouxe o seu violão brilhante e a suas mãos educadas que insistiam em acompanhar uma a outra. O dedilhar preciso, ao mesmo tempo tenso e suave. Com voz grave, nos intervalos, ensinou ao público. Deixou na mente dos presentes as melodias candentes e seus autores esquecidos: João Pernambuco, Dilermando Reis, Agustín Barrios.
O público cresceu atrás de nós e inundou o terreiro. Meia hora de show, um pouco mais. Beneficente, em prol da própria música e do renascimento da banda do lugar. Os acordes doces, o dedilhar inefável, o músico no palco mágico – galpão que se transforma em catedral, como as notas de Dilermando e a melodia de Pernambuco que está em Tom Jobim. Que frase é aquela? Como pode ele tocar como quem canta?
Tudo isso, ao fim, encontra no rosto cru da indescritível audiência – sem maquiagens ou parfums – a beleza indizível de uma nota em seu lugar. Deixa, o músico, o palco, após o bis. E, lá no centro e no alto, a faixa continua dizendo em português amoroso: Bem-vindo Turíbio Santos! Atrás, lá no fundo, a luz esverdeia ao cruzar com verdadeiras folhas de bananeira.
Ontem, o show foi num galpão sem paredes, só tinha teto e chão de galpão. Num lugar da cidade chamado “Ação Rural”. Chegamos cedo para ver como é que era. Tem que comprar ingressos? Tem não. É fácil, explicam. Tem um gramado, depois tem um galpão. É só seguir.
Fácil mesmo. O gramado não era gramado, é um terreiro; o gramado mesmo ficava do outro lado, no campo de futebol. O galpão, já disse, deixava vazar os olhos pelas paredes - tudo grande e, em volta, o verde das montanhas e das matas. O chão do galpão se elevava sobre o terreiro uns dez degraus. Lá dentro do que era vazado: uma parte de cadeiras, outra de palco, outra de chão. No centro do palco, do alto, pendia um faixa.
É aqui mesmo, eu disse. E saímos para o lugarejo vizinho, matar as saudades: falar com um chef baiano que serve comida afrofrancesa; falar com um dentista que é dono de pousada; pegar uma sandália indescritivelmente confortável, incomparavelmente bela e escandalosamente barata que há meses estava encomendada; comer uma salada de folhas dos deuses com o peixe que lhe fez companhia; e voltar.
Meia hora antes do show, ao descer do carro, esbarro num casal de amigos e sentamos juntos nas cadeiras disponíveis. Estavam perto do palco e não eram muitas. Dali dava para sentir a alegre expectativa do público e ver o capricho do acontecimento. Um forte arco de metal impunha sua presença cruzando a frente do palco de um canto ao outro e dando suporte a luzes e alto falantes. O banquinho vazio e os dois microfones posicionados aguardavam o músico e, sob o jogo de luz, pareciam estar ali para receber o público.
Que chegava e chegava. Olhando para trás – mas quem queria olhar para trás? Pois, olhando, o chão do galpão era um mar de gente. O músico entrou, pontualmente. Trouxe o seu violão brilhante e a suas mãos educadas que insistiam em acompanhar uma a outra. O dedilhar preciso, ao mesmo tempo tenso e suave. Com voz grave, nos intervalos, ensinou ao público. Deixou na mente dos presentes as melodias candentes e seus autores esquecidos: João Pernambuco, Dilermando Reis, Agustín Barrios.
O público cresceu atrás de nós e inundou o terreiro. Meia hora de show, um pouco mais. Beneficente, em prol da própria música e do renascimento da banda do lugar. Os acordes doces, o dedilhar inefável, o músico no palco mágico – galpão que se transforma em catedral, como as notas de Dilermando e a melodia de Pernambuco que está em Tom Jobim. Que frase é aquela? Como pode ele tocar como quem canta?
Tudo isso, ao fim, encontra no rosto cru da indescritível audiência – sem maquiagens ou parfums – a beleza indizível de uma nota em seu lugar. Deixa, o músico, o palco, após o bis. E, lá no centro e no alto, a faixa continua dizendo em português amoroso: Bem-vindo Turíbio Santos! Atrás, lá no fundo, a luz esverdeia ao cruzar com verdadeiras folhas de bananeira.
terça-feira, 13 de abril de 2010
Tocata and Fuga
Resolvo pesquisar uma palavra na internet. Uma palavra só. Que ouvi duas vezes só, na vida. Dois médicos a disseram. Um deles foi meu pai, que a disse neste domingo. A palavra é grande e tem um ritmo interessante, a despeito de ser um comentário sobre o meu comportamento. Dois cliques e está ali, muito brevemente, uma descrição clara. Nenhum problema, exceto pelo fato de que estou sendo medicada com um estabilizante químico de baixa gramatura (esqueci agora o nome certo que se usa, prefiro usar o nome errado mesmo, você está me entendendo, eu sei). Tal coisa já me faz bem há mais de seis meses. Então, não é um problema, também não é uma rima, mas é uma solução muito benvinda.
Um clique leva a outro, assim como uma palavra leva à outra e está ali, no parágrafo da descrição na internet, uma expressão que eu não esperava encontrar: fuga de idéias. Hein?! Isso foi agora há pouco. A primeira imagem imediata que me veio foi de algo ligado à música. Tocata em fuga*, por que não? Então leio a nova descrição psíquica de um comportamento associado ao meu tipo de ser humano e quase caio para trás.
Não caí para trás, caí dentro, dentro do texto que agora escrevo antes do café. Quase fui desmascarada pela descrição! Então tudo que eu acho talento e capacidade está ali sumariamente descrito como característica de certo padrão de comportamento psíquico? Minha curiosidade foi imediata; e claro que eu sabia que aquilo tinha a ver comigo, não tinha a ver com música.
Vou tomar meu café e volto, porque o dia precisa começar. Passei novamente na tal página da internet; recuso-me a repetir seu conteúdo. Seria como se, de repente, no meio do ato fabuloso, o mágico revelasse o segredo de um lance. Exatamente como acontece agora nas tvs, em que o prazer do público é justamente descobrir o truque. Porque há um truque, sempre há – e já não nos contentamos mais somente com o mistério.
Dito isso, recorro novamente à descrição para continuar. Estão lá, em uma única frase, alguns dos procedimentos mentais que me são mais caros. Se copiar a frase aqui, encerro a crônica sem poesia – o que não faria jamais! Crê, leitor, que até o processo de associação aleatória de ideias que quase sempre termina em rima está descrito ali - um caso exemplar de síntese, de redução bioquímica.
Eu não estaria aqui compartilhando esses pensamentos vãos, se não tivesse, pela ordem: 1. que cumprir o compromisso de escrever uma crônica por semana; 2. que encontrar um tema para conduzir minha pena do início ao fim; 3. que aceitar que há muito mais coisas entre um cronista e seu tema ou a falta dele do que pode supor a vã filosofia; 4. se não tivesse mencionado, em (ana)crônica anterior aqui mesmo, meu processo de idéias desembestadas. E chega porque, ao que parece, até a vã filosofia pode ser apenas um processo bioquímico.
A crônica vai para o forno, porque, enquanto isso, o dia arde. Fui salva da ignorância pela Wikipédia: “Tocata and Fuga” ou, em português, “Tocata e Fuga”. Qualquer uma, de J. S. Bach, em ré menor. Fica declarado neste parágrafo que Tocata em Fuga não existe, sendo apenas produto de um cérebro taquipsíquico.
E para quem se importa com detalhes menos relevantes como eu: Tocata “são composições para teclado nas quais uma das mãos e depois a outra realizam corridas virtuosísticas e brilhantes passagens em cascata, contra um acompanhamento de acordes na outra mão”. Fuga, além das associações que popularmente fazemos, é “como se o compositor estivesse fugindo e perseguindo o tema”. E, mais importante: “perseguindo todas as pequenas partes do tema espalhadas pela música, com cada uma de suas diversas variações”.
Persiga comigo, leitor, este blog que singramos na internet, porque nossa viagem está apenas começando...
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Anacrônica de quarta-feira passada
Estão errados todos os cronistas que dizem que não têm assunto e também aqueles que dizem que jamais reconheceriam publicamente sua timidez ocasional diante do papel. Não é assunto de menos o problema, já disse alguém. É claro que são assuntos demais. Quanto ao fato de serem assuntos repetidos, ressalvo que repetir-se é algo inerente ao homem, tanto quanto seu interesse por novidades. Dê ao seu público novidades (requentadas ou travestidas, vá lá) e ele lhe dará sua atenção. Então, sobre a folha branca e o desafio do papel, estamos conversados.
Escrevo desde que me entendo por gente e escrevo crônicas desde que encontrei um lugar para publicá-las. Já se vão lá dez anos. É muito difícil encontrar um lugar para publicar crônicas - quase tão difícil quanto encontrar uma mulher fazendo stand up comedy hoje. Por um motivo ou por outro, parece que todos os lugares já estão ocupados. Foi aí que, por um motivo ou por outro, decidi-me a escrever um blog.
Blog é coisa do passado, já li; o negócio agora é twitter (também estou ali). As pessoas matam as novidades tão rapidamente e depois se lamentam que elas já se foram. Novidade é uma coisa autofágica: fica velha no instante em que nasce. É como o ser humano: depois que brota, só faz morrer. Bem, tardiamente, depois que todo mundo que tinha que ter blog já teve, eu resolvo ativar o meu – que, creio, sofreu de paralisia cerebral ao nascer.
Já recuperada, agora, decidi-me: o blog irá florescer. Então, devagar me proponho a tecer crônicas, cumprindo comigo também a função do editor. Este, todos sabem, é aquele capataz que faz, brilhantemente, o texto fazer sentido na mente do escritor a tempo de respeitar o/a “dead line” e a sua própria reputação. E aqui também estamos conversados, leitor: combinei comigo o ritmo insano reservado aos bons cronistas e, semanalmente, cumprirei neste terreno o ritual de postar uma crônica amiga.
Assuntos farfalham por aí. No meu cérebro, pelo que consigo acompanhar e também porque não tenho acesso ao cérebro dos outros, digo sem medo de parecer pedante que chego a me cansar de ter ideias. Não sou uma Fábrica de Ideias, como certos amigos meus. Sou uma usina, uma manufatura, uma artesã de ideias em profusão. Têm dias que elas vêm em cachos, em pencas mesmo. E antes que me comova, vaidosa, deixe explicar que o mesmo talento para pensar não tenho para fazer: ficam as idéias por meu cérebro vagando, simplesmente, sucedendo umas as outras. Quase me embaralham.
Triste, diria um realizador. Acho também. Meu marido diz - com razão, devo admitir - que adoro uma novidade. A novidade da hora é encher este espaço de crônicas, já disse. Semanalmente, já me comprometi. Ter muitos leitores! - e aqui divido com você esta responsabilidade, leitor de agora. Sou como você, uma novidadeira. Então, ao ouvir o meu chamado, reserve uma pausa para o que prometo ser seu deleite. Só não espere demais de mim, estou em processo de aquecimento. Ainda engatinho.
* Prezado leitor e leitora, obrigada pelas visitas e comentários que recebi depois da minha primeira divulgação da "retomada do blog". Esta crônica acima foi escrita no prazo que me foi dado pelo "editor". Ele, sim, responsável final pelo meu resultado, resolveu ponderar mais um pouco e a guardou na gaveta. Relendo-a, resolveu publicá-la agora. Até a próxima!
NF 2/04/2010
Escrevo desde que me entendo por gente e escrevo crônicas desde que encontrei um lugar para publicá-las. Já se vão lá dez anos. É muito difícil encontrar um lugar para publicar crônicas - quase tão difícil quanto encontrar uma mulher fazendo stand up comedy hoje. Por um motivo ou por outro, parece que todos os lugares já estão ocupados. Foi aí que, por um motivo ou por outro, decidi-me a escrever um blog.
Blog é coisa do passado, já li; o negócio agora é twitter (também estou ali). As pessoas matam as novidades tão rapidamente e depois se lamentam que elas já se foram. Novidade é uma coisa autofágica: fica velha no instante em que nasce. É como o ser humano: depois que brota, só faz morrer. Bem, tardiamente, depois que todo mundo que tinha que ter blog já teve, eu resolvo ativar o meu – que, creio, sofreu de paralisia cerebral ao nascer.
Já recuperada, agora, decidi-me: o blog irá florescer. Então, devagar me proponho a tecer crônicas, cumprindo comigo também a função do editor. Este, todos sabem, é aquele capataz que faz, brilhantemente, o texto fazer sentido na mente do escritor a tempo de respeitar o/a “dead line” e a sua própria reputação. E aqui também estamos conversados, leitor: combinei comigo o ritmo insano reservado aos bons cronistas e, semanalmente, cumprirei neste terreno o ritual de postar uma crônica amiga.
Assuntos farfalham por aí. No meu cérebro, pelo que consigo acompanhar e também porque não tenho acesso ao cérebro dos outros, digo sem medo de parecer pedante que chego a me cansar de ter ideias. Não sou uma Fábrica de Ideias, como certos amigos meus. Sou uma usina, uma manufatura, uma artesã de ideias em profusão. Têm dias que elas vêm em cachos, em pencas mesmo. E antes que me comova, vaidosa, deixe explicar que o mesmo talento para pensar não tenho para fazer: ficam as idéias por meu cérebro vagando, simplesmente, sucedendo umas as outras. Quase me embaralham.
Triste, diria um realizador. Acho também. Meu marido diz - com razão, devo admitir - que adoro uma novidade. A novidade da hora é encher este espaço de crônicas, já disse. Semanalmente, já me comprometi. Ter muitos leitores! - e aqui divido com você esta responsabilidade, leitor de agora. Sou como você, uma novidadeira. Então, ao ouvir o meu chamado, reserve uma pausa para o que prometo ser seu deleite. Só não espere demais de mim, estou em processo de aquecimento. Ainda engatinho.
* Prezado leitor e leitora, obrigada pelas visitas e comentários que recebi depois da minha primeira divulgação da "retomada do blog". Esta crônica acima foi escrita no prazo que me foi dado pelo "editor". Ele, sim, responsável final pelo meu resultado, resolveu ponderar mais um pouco e a guardou na gaveta. Relendo-a, resolveu publicá-la agora. Até a próxima!
NF 2/04/2010
quarta-feira, 17 de março de 2010
A maior rodoviária do país
Chegamos. Com as malas vermelhas como a minha bolsa vermelha como a sacola dos livros que comprei como esta caderneta. Chegamos na rodoviária imensa, a maior do país. “As lojas estão abertas”, eu digo. “We can keep buying”, ele diz. “Vamos ao café?”, respondo.
Chegamos ao café de sempre, de domingo à noite, de todas as vezes que retornamos da maior cidade do país. Os sons se misturam, claro, mas antes mesmo de pousar as pesadas malas vermelhas, o piano canta. Vejo o móvel preto ao fundo do café aberto no pátio da rodoviária, as mesas ali perto estão ocupadas. Um homem toca. Notas doces se misturam ao ar. “Vou ver as lojas”, meu homem diz. “Você fica aí com as malas?” “Fico”, eu digo.
No piano preto, de cauda, o homem toca. Noto que não é exímio pianista, mas suas notas embelezam o ar, rivalizam com as vozes e o som do alto falante.
O homem agora toca de olhos fechados; observo todas as mesas ocupadas. Enfio a mão na bolsa para pegar a caderneta e escrever. Quando levanto a cabeça, o homem já deixou o piano e segue pela rodoviária, segurando a mão e as malas daquela moça ali que estava de costas sentada sozinha na mesa tão próxima do piano.
Me espanto. Estendo o olhar acompanhando o casal e suas malas. Me espanto que o piano tão rapidamente tenha se calado. Aberto e mudo ele fica por menos de cinco minutos, porque outro homem sai de uma das mesas e senta-se para tocar também. Ele acaba seu solo e ao fim, uma pianista imediatamente ocupa o seu lugar. Isso é uma rodoviária na maior cidade do país.
Ele volta do seu tour pelas lojas, enquanto a hora do ônibus não vem. Achou uma lupa para comprar pra mim. Escreve no meu livro uma dedicatória bonita, enquanto eu termino essa história na minha caderneta.
Mas, engano-me! Esta história não termina. Descemos para o embarque e... surpresa! A namorada do primeiro pianista está conosco dentro do ônibus, depois do caloroso abraço de despedida. Ela sorri. Ele acena para ela. Pelo sorriso percebo que ela estudou comigo na infância. Naquela época, eu nem imaginava que um dia estaria ali, na maior rodoviária do país.
Chegamos ao café de sempre, de domingo à noite, de todas as vezes que retornamos da maior cidade do país. Os sons se misturam, claro, mas antes mesmo de pousar as pesadas malas vermelhas, o piano canta. Vejo o móvel preto ao fundo do café aberto no pátio da rodoviária, as mesas ali perto estão ocupadas. Um homem toca. Notas doces se misturam ao ar. “Vou ver as lojas”, meu homem diz. “Você fica aí com as malas?” “Fico”, eu digo.
No piano preto, de cauda, o homem toca. Noto que não é exímio pianista, mas suas notas embelezam o ar, rivalizam com as vozes e o som do alto falante.
O homem agora toca de olhos fechados; observo todas as mesas ocupadas. Enfio a mão na bolsa para pegar a caderneta e escrever. Quando levanto a cabeça, o homem já deixou o piano e segue pela rodoviária, segurando a mão e as malas daquela moça ali que estava de costas sentada sozinha na mesa tão próxima do piano.
Me espanto. Estendo o olhar acompanhando o casal e suas malas. Me espanto que o piano tão rapidamente tenha se calado. Aberto e mudo ele fica por menos de cinco minutos, porque outro homem sai de uma das mesas e senta-se para tocar também. Ele acaba seu solo e ao fim, uma pianista imediatamente ocupa o seu lugar. Isso é uma rodoviária na maior cidade do país.
Ele volta do seu tour pelas lojas, enquanto a hora do ônibus não vem. Achou uma lupa para comprar pra mim. Escreve no meu livro uma dedicatória bonita, enquanto eu termino essa história na minha caderneta.
Mas, engano-me! Esta história não termina. Descemos para o embarque e... surpresa! A namorada do primeiro pianista está conosco dentro do ônibus, depois do caloroso abraço de despedida. Ela sorri. Ele acena para ela. Pelo sorriso percebo que ela estudou comigo na infância. Naquela época, eu nem imaginava que um dia estaria ali, na maior rodoviária do país.
quinta-feira, 11 de março de 2010
Oito de março de dois mil e dez. Sonhei que matei um leão. Era um leão sem dentes, mas estava faminto.
Na minha casa havia muita gente.
Ali, eu criava um leão sem dentes, mas não tinha tempo para alimentá-lo.
Na véspera, vinda de uma festa, eu dividira um taxi com a Maitê Proença*.
Não foi bem assim uma divisão. Por acaso saímos da mesma festa de madrugada, já quase de manhã e fomos juntas buscar um taxi que não queria nos levar.
Ele estava parado. Não queria sair.
Então, ela – certamente com a autoridade de ser quem era -, perguntou-lhe se ele lhe emprestava o carro. No seu tom estava embutido que ela devolveria honestamente o automóvel e ele, prontamente, cedeu aos seus encantos.
Estava ocupado em se divertir.
Seguimos pela Lagoa – Maitê Proença* ao volante e eu, no taxi amarelo.
Paramos numa pracinha do Jardim Botânico e ela desceu, já encontrando seu amado na calçada. Eu disse:
- Ei, você não vai devolver o carro?
Ao que ela deu de ombros como quem diz: devolve você! E saiu pela calçada arborizada.
Pensei imediatamente que já estava na hora de eu aprender a devolver os problemas para os outros e não pegá-los para mim, como de costume.
Mas essa conclusão haveria de servir para a próxima vez, pois eu já estava no volante do carro.
Fui dar em casa – e o local tinha o movimento de um centro holístico. O lugar me era familiar e havia várias pessoas, quase como numa festa.
As pessoas dançavam e alguns bebês nadavam na água.
Eu até nadei com eles.
O mote era “dançar conforme a música”.
Ou “em Roma, como os romanos” – para usar uma expressão do meu marido.
A certa hora o ritmo frenético da casa brecou e eu me lembrei que tinha que devolver o taxi.
O carro ainda estava lá fora, porque eu encontrei a casa cheia. O que quer que signifique esse raciocínio, foi o que me ocorreu.
Corri à portaria, onde o carro estava parado e duas pessoas conversavam.
Dali mesmo, vi o leão.
E me lembrei que ele estava, há alguns dias, com fome.
O pelo muito dourado e o focinho banguela babando confirmavam meu insigh.
Virei-me rapidamente para, enfim, buscar comida e, no ato, senti o bafo do perigo ao dar as costas a um leão faminto.
Do sonho adiante só me lembro dos convivas na contínua celebração dos vegetarianos, agora em torno de belos cortes de picanha sangrenta.
Picanha de leão.
...
Rio, 8 de março de 2010.
Ali, eu criava um leão sem dentes, mas não tinha tempo para alimentá-lo.
Na véspera, vinda de uma festa, eu dividira um taxi com a Maitê Proença*.
Não foi bem assim uma divisão. Por acaso saímos da mesma festa de madrugada, já quase de manhã e fomos juntas buscar um taxi que não queria nos levar.
Ele estava parado. Não queria sair.
Então, ela – certamente com a autoridade de ser quem era -, perguntou-lhe se ele lhe emprestava o carro. No seu tom estava embutido que ela devolveria honestamente o automóvel e ele, prontamente, cedeu aos seus encantos.
Estava ocupado em se divertir.
Seguimos pela Lagoa – Maitê Proença* ao volante e eu, no taxi amarelo.
Paramos numa pracinha do Jardim Botânico e ela desceu, já encontrando seu amado na calçada. Eu disse:
- Ei, você não vai devolver o carro?
Ao que ela deu de ombros como quem diz: devolve você! E saiu pela calçada arborizada.
Pensei imediatamente que já estava na hora de eu aprender a devolver os problemas para os outros e não pegá-los para mim, como de costume.
Mas essa conclusão haveria de servir para a próxima vez, pois eu já estava no volante do carro.
Fui dar em casa – e o local tinha o movimento de um centro holístico. O lugar me era familiar e havia várias pessoas, quase como numa festa.
As pessoas dançavam e alguns bebês nadavam na água.
Eu até nadei com eles.
O mote era “dançar conforme a música”.
Ou “em Roma, como os romanos” – para usar uma expressão do meu marido.
A certa hora o ritmo frenético da casa brecou e eu me lembrei que tinha que devolver o taxi.
O carro ainda estava lá fora, porque eu encontrei a casa cheia. O que quer que signifique esse raciocínio, foi o que me ocorreu.
Corri à portaria, onde o carro estava parado e duas pessoas conversavam.
Dali mesmo, vi o leão.
E me lembrei que ele estava, há alguns dias, com fome.
O pelo muito dourado e o focinho banguela babando confirmavam meu insigh.
Virei-me rapidamente para, enfim, buscar comida e, no ato, senti o bafo do perigo ao dar as costas a um leão faminto.
Do sonho adiante só me lembro dos convivas na contínua celebração dos vegetarianos, agora em torno de belos cortes de picanha sangrenta.
Picanha de leão.
...
Mundo real. De manhã, após um exame de sangue, um taxi veio buscar a mim e ao meu filho para nos levar ao médico. Depois de um engarrafamento de 120 minutos, estou sentada com meu adolescente na pequena sala de espera do Dr. Gorgone. Chego, sento, me apresento, respiro, viro para o lado e reparo sobre a mesa de canto um enorme objeto quase encostado no meu braço direito. Uma carranca de madeira maciça de sessenta centímetros de diâmetro por oitenta de altura com a boca aberta cheia de dentes – e afiados caninos - me sorri!
Rio, 8 de março de 2010.
Obs.: Sonhos quase nunca valem uma boa crônica. Este é apenas um exemplo. Vale pela retomada do blog...
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
As palavras que nos lêem
“Ele faz aquilo com o pé nas costas”, diz meu pai de vez em quando. Pode ser um comentário sobre qualquer pessoa que faça qualquer coisa muito facilmente. Desde pequena eu sempre gostei muito de escrever. Mas, inocente, nunca imaginei que um dia eu poderia escrever assim tão facilmente. Hoje, comigo é assim como ele diz: com o pé nas costas. (Mas não desça, leitor, à crueza da imagem, sugiro que fique aí mesmo, na superfície).
É engraçado domar as palavras. Acho profundamente curioso o fato das palavras terem pesos diferentes de acordo com as variáveis mais improváveis: o momento da fala, a cabeça do leitor, o recinto, a localização na frase, e outras tantas. Isso, sem falar da entonação, mas aí já entraríamos em outro terreno igualmente fértil.
No campo das palavras escritas, esse peso diferente que elas adquirem, está ligado ao impacto que se quer causar. E, hoje em dia, o negócio é causar muito impacto, já que são tantas palavras por dia – zilhões diários – que nos entram por todos os poros. Impactar o leitor – que é também o consumidor, o motorista, o contribuinte, o transeunte, o cliente, o inquilino, o locatário, o pai/mãe de família, o adolescente, o jogador, enfim, o sujeito – é o foco. E tome de leitor impactado (ou consumidor, motorista, contribuinte e por aí vai).
É tanto impacto verbal, que chega a doer. E dói mesmo. Com esse negócio da gripe, eu me peguei pensando: o que é pior quando o caso é uma notícia ruim? Tê-la escrita ou falada? Mal sei porquê, mas prefiro-a a escrita. É mais fácil abandoná-la antes que nos entre, ou melhor, que nos impacte. (Veja se é possível, se alguma vez na vida, eu pensei em escrever uma frase com uma palavra torta – e correta - como esta última da frase anterior).
Voltando às boas notícias, reconheço que acostumamo-nos com o peso das palavras. Jornalistas, então - com ou sem diploma - jornalistas sabem disso muito bem. Eu sei bem disso. Sei disso com o pé nas costas. Mas nas palavras que tanto amo, há, para alguns, como eu, algo infinitamente mais importante do que o peso. É a música. Nas palavras escritas tem música – para os que sabem ouvi-la, é claro.
Explico: as palavras se atraem pelo ritmo. E é o ritmo que dita a música. Assim: se a língua é rica e existem vários sinônimos, o que é que explica escolher este termo ou aquele? Se a língua é rica e existem tantas maneiras de dizer a mesma coisa, por que optamos às vezes (e não: às vezes, optamos) por um estilo contrário? Há mais coisas entre o céu e a terra, há mais variáveis entre o escritor e seu texto do que pode supor a vã filosofia.
Confesso uma coisa: quanto mais escrevo, mais escrevo sobre o que escrevo. Parece egolatria, mas não é. É amor às palavras mesmo, ao qual, enfim, me rendi. E para poupar tempo, leitor(a) amigo(a), aviso que estão dispensados todos aqueles leitores que prefiram o peso à musicalidade das letras.
É engraçado domar as palavras. Acho profundamente curioso o fato das palavras terem pesos diferentes de acordo com as variáveis mais improváveis: o momento da fala, a cabeça do leitor, o recinto, a localização na frase, e outras tantas. Isso, sem falar da entonação, mas aí já entraríamos em outro terreno igualmente fértil.
No campo das palavras escritas, esse peso diferente que elas adquirem, está ligado ao impacto que se quer causar. E, hoje em dia, o negócio é causar muito impacto, já que são tantas palavras por dia – zilhões diários – que nos entram por todos os poros. Impactar o leitor – que é também o consumidor, o motorista, o contribuinte, o transeunte, o cliente, o inquilino, o locatário, o pai/mãe de família, o adolescente, o jogador, enfim, o sujeito – é o foco. E tome de leitor impactado (ou consumidor, motorista, contribuinte e por aí vai).
É tanto impacto verbal, que chega a doer. E dói mesmo. Com esse negócio da gripe, eu me peguei pensando: o que é pior quando o caso é uma notícia ruim? Tê-la escrita ou falada? Mal sei porquê, mas prefiro-a a escrita. É mais fácil abandoná-la antes que nos entre, ou melhor, que nos impacte. (Veja se é possível, se alguma vez na vida, eu pensei em escrever uma frase com uma palavra torta – e correta - como esta última da frase anterior).
Voltando às boas notícias, reconheço que acostumamo-nos com o peso das palavras. Jornalistas, então - com ou sem diploma - jornalistas sabem disso muito bem. Eu sei bem disso. Sei disso com o pé nas costas. Mas nas palavras que tanto amo, há, para alguns, como eu, algo infinitamente mais importante do que o peso. É a música. Nas palavras escritas tem música – para os que sabem ouvi-la, é claro.
Explico: as palavras se atraem pelo ritmo. E é o ritmo que dita a música. Assim: se a língua é rica e existem vários sinônimos, o que é que explica escolher este termo ou aquele? Se a língua é rica e existem tantas maneiras de dizer a mesma coisa, por que optamos às vezes (e não: às vezes, optamos) por um estilo contrário? Há mais coisas entre o céu e a terra, há mais variáveis entre o escritor e seu texto do que pode supor a vã filosofia.
Confesso uma coisa: quanto mais escrevo, mais escrevo sobre o que escrevo. Parece egolatria, mas não é. É amor às palavras mesmo, ao qual, enfim, me rendi. E para poupar tempo, leitor(a) amigo(a), aviso que estão dispensados todos aqueles leitores que prefiram o peso à musicalidade das letras.
O que se leva desta vida
As pessoas vivem, descobri por quê: para inventar histórias. Tudo, na vida, é enredo. Olhe para o lado e veja. O maior sucesso da comunicação, a televisão, vive de inventar histórias, captar histórias, formatar histórias, editar histórias e contá-las. É tanta gente fazendo isso e são tantos canais, com tantos programas vinte-e-quatro horas, que chega ao cúmulo de muitas histórias perderem o viço, de tanto que o mote se repete.
Sim, você pensou, leitor: a televisão, o maior sucesso? e a internet? Deixei para depois, leitor, porque nessa, então, nem se fala. Ali, o que mais tem é história e onde se pode ainda encontrar algum ineditismo, porque valem as histórias pessoais. Cada um tem uma e cada um, se quiser, conta a sua.
Faço uma pergunta: quando uma história, de certa maneira inédita, como a da cantora feia Susan Boyle ou Dói-lhe, sei lá eu, sairia dos confins da sua existência se não fosse pela propagação de sua imagem feia - esta, sim, absolutamente inédita? Então, já que estamos de acordo sobre o fenômeno da comunicação, vamos voltar à existência, ou melhor, à história.
Com o que preenchemos todos os anos incertos que temos de vida, senão com histórias? Uma aqui, outra ali, vamos tecendo e colhendo enredos ao longo dos anos, meses, dias, quer tenhamos mais ou menos consciência disso neste ou naquele episódio. No tal do último suspiro, mesmo quem ainda não chegou lá, sabe: podendo, o que o homem faz é olhar para trás. Não?
Quando nasce uma criança, nasce uma história. Adicione o seguinte: já, naquele momento, há uma sinopse esboçada. Aquela família, aquele pai, aquela mãe; ou, sem pai e sem mãe; ou, colocado na porta na lata de lixo de um hospício; ou, nascido em Friburgo, nascido em Macau etc. Ainda que, iludidos, pensemos que tudo está por fazer, que temos a vida pela frente, que o futuro a Deus pertence, convenhamos, há um ponto de partida definido na sinopse original, que antecipadamente mapeia a trajetória.
Então, vamos percorrendo a montanha-russa da vida, ávidos para estacionarmos em algum ponto e podermos, com deleite, relatar nossos altos e baixos: na internet, na tv, no ombro amigo, onde quer que aja alguém que nos ouça. Assim, vamos alinhavando nossos atos e intenções.
Claro que o livre-arbítrio funciona como elemento surpresa em todo o drama. E também a mão do autor, que é como chamamos aquilo que desconhecemos e que, vez ou outra, parece interferir decisivamente no rumo da prosa. A nós, nos cabe tramar e trançar o cotidiano com mais ou menos instrução, maior ou menor visão de futuro.
Tudo isso para chegar nas esquinas da vida, ou no ponto final, e relatar os fatos vividos, ou seja, a história - aqui em baixo, lá em cima ou onde quer que seja. Porque, afinal, do imenso desconhecido que um dia nos espera, parece que em um ponto estamos todos de acordo com o velho ditado: é a vida que se leva.
Sim, você pensou, leitor: a televisão, o maior sucesso? e a internet? Deixei para depois, leitor, porque nessa, então, nem se fala. Ali, o que mais tem é história e onde se pode ainda encontrar algum ineditismo, porque valem as histórias pessoais. Cada um tem uma e cada um, se quiser, conta a sua.
Faço uma pergunta: quando uma história, de certa maneira inédita, como a da cantora feia Susan Boyle ou Dói-lhe, sei lá eu, sairia dos confins da sua existência se não fosse pela propagação de sua imagem feia - esta, sim, absolutamente inédita? Então, já que estamos de acordo sobre o fenômeno da comunicação, vamos voltar à existência, ou melhor, à história.
Com o que preenchemos todos os anos incertos que temos de vida, senão com histórias? Uma aqui, outra ali, vamos tecendo e colhendo enredos ao longo dos anos, meses, dias, quer tenhamos mais ou menos consciência disso neste ou naquele episódio. No tal do último suspiro, mesmo quem ainda não chegou lá, sabe: podendo, o que o homem faz é olhar para trás. Não?
Quando nasce uma criança, nasce uma história. Adicione o seguinte: já, naquele momento, há uma sinopse esboçada. Aquela família, aquele pai, aquela mãe; ou, sem pai e sem mãe; ou, colocado na porta na lata de lixo de um hospício; ou, nascido em Friburgo, nascido em Macau etc. Ainda que, iludidos, pensemos que tudo está por fazer, que temos a vida pela frente, que o futuro a Deus pertence, convenhamos, há um ponto de partida definido na sinopse original, que antecipadamente mapeia a trajetória.
Então, vamos percorrendo a montanha-russa da vida, ávidos para estacionarmos em algum ponto e podermos, com deleite, relatar nossos altos e baixos: na internet, na tv, no ombro amigo, onde quer que aja alguém que nos ouça. Assim, vamos alinhavando nossos atos e intenções.
Claro que o livre-arbítrio funciona como elemento surpresa em todo o drama. E também a mão do autor, que é como chamamos aquilo que desconhecemos e que, vez ou outra, parece interferir decisivamente no rumo da prosa. A nós, nos cabe tramar e trançar o cotidiano com mais ou menos instrução, maior ou menor visão de futuro.
Tudo isso para chegar nas esquinas da vida, ou no ponto final, e relatar os fatos vividos, ou seja, a história - aqui em baixo, lá em cima ou onde quer que seja. Porque, afinal, do imenso desconhecido que um dia nos espera, parece que em um ponto estamos todos de acordo com o velho ditado: é a vida que se leva.
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