“Ele faz aquilo com o pé nas costas”, diz meu pai de vez em quando. Pode ser um comentário sobre qualquer pessoa que faça qualquer coisa muito facilmente. Desde pequena eu sempre gostei muito de escrever. Mas, inocente, nunca imaginei que um dia eu poderia escrever assim tão facilmente. Hoje, comigo é assim como ele diz: com o pé nas costas. (Mas não desça, leitor, à crueza da imagem, sugiro que fique aí mesmo, na superfície).
É engraçado domar as palavras. Acho profundamente curioso o fato das palavras terem pesos diferentes de acordo com as variáveis mais improváveis: o momento da fala, a cabeça do leitor, o recinto, a localização na frase, e outras tantas. Isso, sem falar da entonação, mas aí já entraríamos em outro terreno igualmente fértil.
No campo das palavras escritas, esse peso diferente que elas adquirem, está ligado ao impacto que se quer causar. E, hoje em dia, o negócio é causar muito impacto, já que são tantas palavras por dia – zilhões diários – que nos entram por todos os poros. Impactar o leitor – que é também o consumidor, o motorista, o contribuinte, o transeunte, o cliente, o inquilino, o locatário, o pai/mãe de família, o adolescente, o jogador, enfim, o sujeito – é o foco. E tome de leitor impactado (ou consumidor, motorista, contribuinte e por aí vai).
É tanto impacto verbal, que chega a doer. E dói mesmo. Com esse negócio da gripe, eu me peguei pensando: o que é pior quando o caso é uma notícia ruim? Tê-la escrita ou falada? Mal sei porquê, mas prefiro-a a escrita. É mais fácil abandoná-la antes que nos entre, ou melhor, que nos impacte. (Veja se é possível, se alguma vez na vida, eu pensei em escrever uma frase com uma palavra torta – e correta - como esta última da frase anterior).
Voltando às boas notícias, reconheço que acostumamo-nos com o peso das palavras. Jornalistas, então - com ou sem diploma - jornalistas sabem disso muito bem. Eu sei bem disso. Sei disso com o pé nas costas. Mas nas palavras que tanto amo, há, para alguns, como eu, algo infinitamente mais importante do que o peso. É a música. Nas palavras escritas tem música – para os que sabem ouvi-la, é claro.
Explico: as palavras se atraem pelo ritmo. E é o ritmo que dita a música. Assim: se a língua é rica e existem vários sinônimos, o que é que explica escolher este termo ou aquele? Se a língua é rica e existem tantas maneiras de dizer a mesma coisa, por que optamos às vezes (e não: às vezes, optamos) por um estilo contrário? Há mais coisas entre o céu e a terra, há mais variáveis entre o escritor e seu texto do que pode supor a vã filosofia.
Confesso uma coisa: quanto mais escrevo, mais escrevo sobre o que escrevo. Parece egolatria, mas não é. É amor às palavras mesmo, ao qual, enfim, me rendi. E para poupar tempo, leitor(a) amigo(a), aviso que estão dispensados todos aqueles leitores que prefiram o peso à musicalidade das letras.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
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2 comentários:
uma belíssima crônica
Delícia de texto... como sempre!
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