quarta-feira, 17 de março de 2010

A maior rodoviária do país

Chegamos. Com as malas vermelhas como a minha bolsa vermelha como a sacola dos livros que comprei como esta caderneta. Chegamos na rodoviária imensa, a maior do país. “As lojas estão abertas”, eu digo. “We can keep buying”, ele diz. “Vamos ao café?”, respondo.

Chegamos ao café de sempre, de domingo à noite, de todas as vezes que retornamos da maior cidade do país. Os sons se misturam, claro, mas antes mesmo de pousar as pesadas malas vermelhas, o piano canta. Vejo o móvel preto ao fundo do café aberto no pátio da rodoviária, as mesas ali perto estão ocupadas. Um homem toca. Notas doces se misturam ao ar. “Vou ver as lojas”, meu homem diz. “Você fica aí com as malas?” “Fico”, eu digo.

No piano preto, de cauda, o homem toca. Noto que não é exímio pianista, mas suas notas embelezam o ar, rivalizam com as vozes e o som do alto falante.

O homem agora toca de olhos fechados; observo todas as mesas ocupadas. Enfio a mão na bolsa para pegar a caderneta e escrever. Quando levanto a cabeça, o homem já deixou o piano e segue pela rodoviária, segurando a mão e as malas daquela moça ali que estava de costas sentada sozinha na mesa tão próxima do piano.

Me espanto. Estendo o olhar acompanhando o casal e suas malas. Me espanto que o piano tão rapidamente tenha se calado. Aberto e mudo ele fica por menos de cinco minutos, porque outro homem sai de uma das mesas e senta-se para tocar também. Ele acaba seu solo e ao fim, uma pianista imediatamente ocupa o seu lugar. Isso é uma rodoviária na maior cidade do país.

Ele volta do seu tour pelas lojas, enquanto a hora do ônibus não vem. Achou uma lupa para comprar pra mim. Escreve no meu livro uma dedicatória bonita, enquanto eu termino essa história na minha caderneta.

Mas, engano-me! Esta história não termina. Descemos para o embarque e... surpresa! A namorada do primeiro pianista está conosco dentro do ônibus, depois do caloroso abraço de despedida. Ela sorri. Ele acena para ela. Pelo sorriso percebo que ela estudou comigo na infância. Naquela época, eu nem imaginava que um dia estaria ali, na maior rodoviária do país.

2 comentários:

Anônimo disse...

Querida prima, o comentario vale para esta e as outras cronicas. Nao li com toda a atencao que merecem, ja que estou fazendo a madrugada aqui na redacao da BBC, mas gostei muito. Sabia que voce escrevia e sabia que voce escreveria bem. Mas nao tinha, ateh hoje, lido nada seu. Admiro sua coragem. Escrever eh se expor, eh inevitavel. Eu tenho ideias e escrevo umas coisinhas, mas falta a sua coragem. Acho que so teria coragem de publicar na China, na Polonia ou no Uzbequistao, onde ninguem me conhece. Novamente parabens. Vou ler com mais tempo no fim de semana.
Jose Leonado
(PS: chegamos todos por ai, eu, a Ewa, o Stachinho, Gabriel e o Antoni na ultima segunda-feira de marco. Acho que so vou ficar no Rio. Apareca por la!)

Unknown disse...

Duas boas surpresas: sabê-la cronista e um texto tão bem escrito. Delicioso.
Christina