domingo, 18 de abril de 2010

Catedral

Meu marido acha que é fácil assim: escreve sobre isso, ele diz. Se eu fosse você, escreveria sobre aquilo, olha a cara dessas pessoas. Tá bem, mas. Não é assim, eu digo. Só de você falar, o tema já foi. Não escrevo sobre algo que se possa pegar.

Ontem, o show foi num galpão sem paredes, só tinha teto e chão de galpão. Num lugar da cidade chamado “Ação Rural”. Chegamos cedo para ver como é que era. Tem que comprar ingressos? Tem não. É fácil, explicam. Tem um gramado, depois tem um galpão. É só seguir.

Fácil mesmo. O gramado não era gramado, é um terreiro; o gramado mesmo ficava do outro lado, no campo de futebol. O galpão, já disse, deixava vazar os olhos pelas paredes - tudo grande e, em volta, o verde das montanhas e das matas. O chão do galpão se elevava sobre o terreiro uns dez degraus. Lá dentro do que era vazado: uma parte de cadeiras, outra de palco, outra de chão. No centro do palco, do alto, pendia um faixa.

É aqui mesmo, eu disse. E saímos para o lugarejo vizinho, matar as saudades: falar com um chef baiano que serve comida afrofrancesa; falar com um dentista que é dono de pousada; pegar uma sandália indescritivelmente confortável, incomparavelmente bela e escandalosamente barata que há meses estava encomendada; comer uma salada de folhas dos deuses com o peixe que lhe fez companhia; e voltar.

Meia hora antes do show, ao descer do carro, esbarro num casal de amigos e sentamos juntos nas cadeiras disponíveis. Estavam perto do palco e não eram muitas. Dali dava para sentir a alegre expectativa do público e ver o capricho do acontecimento. Um forte arco de metal impunha sua presença cruzando a frente do palco de um canto ao outro e dando suporte a luzes e alto falantes. O banquinho vazio e os dois microfones posicionados aguardavam o músico e, sob o jogo de luz, pareciam estar ali para receber o público.

Que chegava e chegava. Olhando para trás – mas quem queria olhar para trás? Pois, olhando, o chão do galpão era um mar de gente. O músico entrou, pontualmente. Trouxe o seu violão brilhante e a suas mãos educadas que insistiam em acompanhar uma a outra. O dedilhar preciso, ao mesmo tempo tenso e suave. Com voz grave, nos intervalos, ensinou ao público. Deixou na mente dos presentes as melodias candentes e seus autores esquecidos: João Pernambuco, Dilermando Reis, Agustín Barrios.

O público cresceu atrás de nós e inundou o terreiro. Meia hora de show, um pouco mais. Beneficente, em prol da própria música e do renascimento da banda do lugar. Os acordes doces, o dedilhar inefável, o músico no palco mágico – galpão que se transforma em catedral, como as notas de Dilermando e a melodia de Pernambuco que está em Tom Jobim. Que frase é aquela? Como pode ele tocar como quem canta?

Tudo isso, ao fim, encontra no rosto cru da indescritível audiência – sem maquiagens ou parfums – a beleza indizível de uma nota em seu lugar. Deixa, o músico, o palco, após o bis. E, lá no centro e no alto, a faixa continua dizendo em português amoroso: Bem-vindo Turíbio Santos! Atrás, lá no fundo, a luz esverdeia ao cruzar com verdadeiras folhas de bananeira.



Um comentário:

Unknown disse...

Márcia,
Ao imprimir uma visão absolutamente pessoal ao show do Turíbio Santos, vc usou sua fonte de inspiração com muita sensibiliade. Destaque para o título!
Bjs
Christina